
Sabes, meu amor, amanhã, já pode ser tarde demais. Nunca se sabe o que é e quando é um grande amor, nunca conseguimos descortinar os grandes desígnios da nossa existência por isso é que eles nos sucedem como partículas de pó que por vezes nos cegam os olhos. Alarmo-te para não abrires agora a janela pois o vento range os dentes lá fora, sucedem mais do que comuns partículas e eu não quero cegar os teus olhos. Deixa que eu abro a janela não tarda quando a tempestade de ideias passar, aí eu deixo entrar a brisa fresca de amanhã.
Amanhã, meu amor, vou continuar à tua espera na janela, naquela mesmo que tu querias abrir e eu não deixei, não vai estar aberta, vou estar atrás das persianas à espreita pelas gretas que deixam entrar a luz que me acompanhar na tua espera.
Amor, chamo-te amor.
Acendes mais um cigarro, mais uma aspiração de algo novo, sopras-me a pele, aspiras-me a alma, embalas-me no teu sussurrar manso e eu continuo a fixar-te os olhos até me perder neles. Ressuscita-me para a vida outra vez, assassina-me demoradamente enquanto eu caminho descalço pela calçada portuguesa sem medo de me pisar, de me atropelar velozmente.
Corre porque corre, a àgua, refresca-me a boca, aguça-me o tacto antes que te vás pela noite escura sem certeza de voltares amanhã, sem condição, sem revolução a banho de sangue inocente. Lava-me o erro das costas, morde-me o saber, morre-me nos braços para nasceres de novo num sopro de beijo meu. Toca-me o corpo como teclas de um piano ferido, cansado e gasto e fá-lo antes que o ponteiro pare na hora marcada do relógio.
Não me precisas de prometer, prefiro saborear o silêncio do vazio, do espaço que fica por saber, porque eu vou estar à janela, disso podes tu ter a certeza e à tua espera. Amanhã, amanhã, meu amor, amanhã ...
Não vou desperdiçar tempo a esperar-te, apenas preciso de me destrair a pensar como gastar o meu amor por ti, e isso só deixa-me em paz, nos braços de um anjo que aclamo ao longe enquanto espreito a tua ausência vez a vez à janela.
Se fores antes de chegar amanhã, vai enquanto durmo, no momento exacto em que os meus olhos estarão cerrados e eu estarei a sorrir, que os meus sonhos se confundem com o quotidiano, fá-lo para me seres leal, fá-lo para me deixares um resto de fé na procissão de particulas, que podem cegar os teus sorridentes olhos, que passa frente à janela.
Não te vou confessar a dor, porque o que se passa cala-se e consente-se pelas pedras da calçada à passagem do vento, as coisas são assim, o que tem de ser apenas será, não vale a pena ser promiscuo ao dizer o que é sentir a tua falta.
Nós não podemos ser felizes todo o tempo. Quem é que o disse? E se o disse, não sabe o que aconteceu às nossas vidas, nem sabe como o mundo inteiro se uniu para nos tramar mas deixa que o sol de inverno em que te conheci está a terminar, meu amor a primavera da vida é a que vale a pena de ser vivida e olha que ela pode bater amanhã na janela, sim que eu vou estar à tua espera, amanhã
Até amanhã ...




